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8/6/2020 | Atualizado 10/10/2021 às 16:59

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Democracia [fotografo]Foto pública[/fotografo]

Democracia [fotografo]Foto pública[/fotografo]
Sim, a vontade é de ir pra rua e rasgar a garganta contra Bolsonaro e isso que alguns ainda têm coragem de chamar de “governo” dele. Mas, em plena pandemia, o momento não recomenda manifestações de rua, onde as aglomerações são inevitáveis e a contaminação também. Outra razão deriva de um cálculo político muito simples: num eventual e provável enfrentamento com violência entre apoiadores e opositores, só quem sai ganhando é ele. Bolsonaro sustenta sua imagem no confronto permanente com adversários reais ou imaginários. Imaginários, por exemplo, são os comunistas que ele jura que dormem debaixo de sua cama e querem implantar uma ditadura no Brasil. Reais são todos, de qualquer matiz ideológico, que lhe fazem oposição. >Manifestantes vão às ruas em todo o Brasil em atos contra Bolsonaro Como seus apoiadores pautam sua ação na violência, no ritmo em que cresce a escalada de radicalismo não é improvável que ocorra a desgraça de termos uma vítima fatal, de qualquer dos dois lados. Ou seremos todos ingênuos de achar que Bolsonaro e sua turma não seriam capazes de colocar infiltrados para promoverem quebra-quebra? Ou de acirrar os ânimos dentro das polícias civis e militares contra manifestantes contrários ao governo, fomentando o clima de animosidade e repressão? Um clima conflagrado, com uma vítima fatal é tudo o que ele precisa para por em prática seu projeto de autogolpe. Em 1937 Vargas cumpriu um roteiro parecido. Basta encaminhar ao Congresso a decretação do Estado de Sítio, sob o argumento da necessidade de preservação da lei e da ordem, conforme preceitua o artigo 137 da Constituição. Com a maioria que vem montando/comprando (como vem fazendo com o Centrão), cria as condições de aprovação. Sem Legislativo nem Judiciário para “atrapalhar”, Bolsonaro realizaria o sonho de implodir os alicerces da democracia e implantaria uma ditadura neofascista. Sem esquecer que os militares estão sendo diariamente cooptados – abra o Diário Oficial de qualquer edição nos últimos meses e vai ver a quantidade de verde-olivas nomeados para isso ou aquilo. A torcida é a de que resistam ao canto da sereia.
Intervenção militar é lorota de bolsominion
A baba nojenta do golpe escorreu da boca pra todo mundo ver quando ele invocou o artigo 142 da Constituição para justificar uma “intervenção militar com Bolsonaro”. Embora o artigo não tenha rigorosamente nada a ver com isso. Mas a frase da intervenção militar com ele no comando tem sido insistentemente escrita nas faixas exibidas nas manifestações anti-democráticas que, por sinal, ocorrem com seu apoio explícito. Por tudo isso, “é preciso não morrer por enquanto, é preciso não dar comida aos urubus”. Neste momento, mais do que nunca, é fundamental que as lideranças políticas do campo democrático – mesmo as de centro, mesmo as de centro-direita, mesmo até algumas de direita anti-bolsonaristas – precisam se despir das vaidades individuais e dos projetos partidários para a formação de uma frente democrática como a que se formou na época da campanha das Diretas Já. Uma frente que conte, inclusive, com a participação das próprias Forças Armadas, a fim de ter as condições necessárias para barrar os arreganhos golpistas. Isso exige sangue frio. Ponderação. Equilíbrio. Capacidade de enfrentar críticas como as de que estão se acovardando enquanto o inimigo avança. Sim, avança, mas o vírus também avança. Só que o coronavírus não tem ideologia.
Bolsonaro está cada dia mais isolado
O roteiro de Bolsonaro rumo ao autogolpe está desenhado e publicamente anunciado – “não é mais questão de se, mas quando” fará a ruptura institucional, como disse o filho Eduardo Bolsonaro, com todas as letras, vírgulas e acentos. Até porque fora do golpe Bolsonaro não tem qualquer alternativa. A cada dia mais ele se isola. As investigações estão invadindo a cada dia seu núcleo familiar. Com a economia em pandarecos, o desemprego campeando e as covas sendo abertas por retroescavadeiras, só lhe resta a alternativa do golpe. Porque o tempo corre contra ele. E usar numa democracia recursos de uma ditadura – como fez ordenando a maquiagem dos números dos infectados e mortos pela pandemia tal como a ditadura militar fez durante a epidemia de meningite e sua divulgação somente depois dos telejornais noturnos - não funciona direito. Por mais que o animal se esconda, deixa o rabo de fora. Sempre aparece um “Plantão” como o da Globo, para amplificar o que ele pretendia esconder.
Não é quando, é como apear o sujeito de lá
Mas, do lado da Frente Democrática que começa a se formar, já há um conjunto de opções para a realização do desembarque do capitão daquela cadeira que o acaso deu de graça a ele, a partir da polarização instaurada no país durante as eleições de 2018, mercê da antipatia pelos corruptos do PT. Três são os cenários possíveis: 1) o impeachment, um velho conhecido, que tem a conveniência de ter previsão constitucional clara. Mas depende da construção de uma base forte e consistente para sua aprovação porque uma absolvição resultaria num elevadíssimo grau de fortalecimento que enfraqueceria o emprego das alternativas seguintes; 2) destituição pela cassação pela Justiça Eleitoral da chapa Bolsonaro-Mourão;  e, 3) um processo por crime comum, a ser julgado pelo Supremo, com base na lista de denúncias que se avolumam contra ele, como diz a Bíblia, “por pensamentos, palavras e obras”. Por enquanto, porém, a praça é do vírus, como o céu é do condor. Melhor comprar panelas boas, que produzam bons sons. Manter bem aquecida a indignação nas redes sociais. E não dar mole. Nem pro vírus nem pros infiltrados. >Mais textos do colunista Paulo José Cunha
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