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O caso Santo André e os abutres de plantão

Congresso em Foco

22/10/2008 | Atualizado às 16:34

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Celso Lungaretti*

Um ex-cunhado meu foi economiário durante toda sua trajetória profissional. Entrou office-boy e acabou gerente. Certa vez me contou que, quando sua agência era assaltada, a maior preocupação dos funcionários era apressarem os bandidos, para que dessem o fora com a grana antes da chegada da polícia: sabiam que os brucutus da lei mandariam bala para todo lado, sem consideração pela vida deles e dos clientes.

Também fiquei conhecendo o Massacre do Carandiru em detalhes, porque trabalhava na Imprensa do Palácio dos Bandeirantes quando o episódio ocorreu. A soldadesca atirou porque estava apavorada com a fumaça, gritaria e confusão. Então, por despreparo, descarregou o medo no gatilho. Oficial que se colocasse entre os matadores fardados e seus alvos acabaria recebendo bala também. É o que já aconteceu um sem-número de vezes nas guerras. Na do Vietnã, por exemplo, havia mais oficiais estadunidenses mortos pelo  fogo amigo  do que pelos disparos do inimigo...
 
O coronel Ubiratan, coitado, nada pôde nem poderia fazer para controlar a tropa. Ele não era nenhum celerado fascistóide, mas sim um comandante de perfil burocrático, contando os dias que faltavam para a aposentadoria e torcendo para que não surgir nenhum contratempo nesse meio-tempo. Tirou o azar grande.
 
O grande culpado, claro foi o governador Fleury, que ordenou uma invasão desnecessária para exibir seu muque, depois convenceu o secretário da Segurança Pública a segurar o rojão.

Enfim, para quem sabe das coisas, nada há a estranhar em que a ação policial em Santo André tenha sido mais uma comédia de erros com final trágico.

A polícia tem pelo menos uma atenuante: incompetência não chega a ser crime.

Já os abutres da imprensa não têm nenhuma.
 
Passaram o tempo todo capitalizando um drama em benefício próprio, para saciar a bisbilhotice doentia de seu público.
 
Comprovaram que a ética do jornalismo foi levada de roldão pela competição e ganância. Está tão morta quanto a tal Eloá.

A vida retoca a arte

Não se preocupando em momento algum com a vida dos patéticos personagens alçados a atração momentânea da arena de gladiadores do capitalismo putrefato, os coleguinhas na ativa fizeram-me até lembrar um dos grandes clássicos de Hollywood: "A Montanha dos Sete Abutres", de Billy Wilder (1951).
 
O filme mostra um mineiro preso em velhas ruínas indigenas e um repórter ambicioso (Kirk Douglas) que o encontra, pode resgatá-lo de imediato, mas o convence a ficar lá, enquanto extrai todos os dividendos jornalísticos dessa situação.

Manipula a tudo e a todos: a esposa do mineiro, que faz melodrama, posando de semiviúva; o xerife, que lhe concede o direito de controlar como lhe bem entender o acesso ao local; o empreiteiro responsável pela obra de salvamento, para que vá pelo caminho mais longo, esticando ao máximo a duração do espetáculo.

Na véspera do  grand finale, entretanto, o mineiro morre de pneumonia. E o abutre responsável pelo desfecho trágico acaba também destruído, pelos remorsos.

O episódio de Santo André também tendia a ser resolvido muito antes, sem tragédia, caso a imprensa não montasse seu circo.

A partir do momento em que virou atração de mídia, o tal Lindemberg passou a representar um papel diferente; afinal, não é qualquer zé mané que tem essa raríssima chance de desfrutar não uns minutinhos ocasionais de fama, mas nada menos do que 100 horas!

Deu no que deu. Agora a ex-namorada está enterrada no caixão e ele passará o melhor de sua vida enterrado numa prisão, se os outros detentos não o matarem antes.

O pior é que se deu uma multiplicação dos abutres. No filme havia apenas um; o título brasileiro se refere ao nome indigena da montanha em que o mineiro ficou meio soterrado.

Em Santo André eram bem mais do que sete. E nenhum deles demonstrou o mínimo remorso, ao contrário do personagem cinematográfico.

A vida não apenas imitou a arte, mas também a retocou. Para pior.

*Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista e escritor. Mantém os blogs O Rebate, em que publica textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.

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