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24/8/2020 | Atualizado 10/10/2021 às 16:58

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[fotografo]Marcello Casal Jr/Agência Brasil[/fotografo]

[fotografo]Marcello Casal Jr/Agência Brasil[/fotografo]
O pior, diante da catástrofe bolsonarista em que estamos atolados, é a constatação dolorosa de que, desde que Cabral pôs os pés naquela praia de Porto Seguro aos dias de hoje, outra coisa não fizemos que pavimentar o terreno em que iria ser edificado o atual monumento à ignomínia. > Adnet compõe samba-enredo antifascista para a Gaviões da Fiel. Assista Num artigo primoroso, que pode ser conferido em o sociólogo Ivann Lago, pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, identifica em Bolsonaro “uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país”. Por incrível e desapontador que pareça, a verdade é que o brasileiro médio é preconceituoso, racista, machista, autoritário, interesseiro, cínico, fofoqueiro, violento, analfabeto na política e na ciência e, que tristeza... desonesto. E isso vem de longe, desde quando Caminha aproveitou a carta ao rei para pedir um empreguinho ao genro. Quando uso a expressão “brasileiro médio” me refiro, é claro, à maioria. As exceções apenas comprovam a regra.  Só respeita o sinal Vermelho pra não pagar multa  Lago reconhece que existem avanços civilizatórios materializados nas legislações nacionais de inclusão, combate ao racismo, ao machismo e ao preconceito. Mas o que está na base dos comportamentos abjetos tem raízes nos padrões culturais de comportamento, e não na ausência de legislação (embora ainda haja lacunas preocupantes, como a injustificável demora para o surgimento de uma lei que criminalize a homofobia, por exemplo). Como diz a letra de “Como nossos pais”, de Belchior, “Minha dor é perceber/que apesar de termos feito tudo o que fizemos/ ainda somos os mesmos e vivemos/ como nossos pais”. Em regra, tudo o que temos feito de civilizatório não ocorre por convicção pessoal, mas por imposição legal. Não fosse pela cobrança de multas, não usaríamos o cinto de segurança. O uso da cadeirinha para as crianças nos carros ainda é vista como um estorvo, tanto que Bolsonaro já tentou derrubar a legislação que exige seu uso. Da mesma forma, para ficar de boa com motoristas infratores, tentou extinguir radares eletrônicos nas estradas. Em plena pandemia, muita gente só passou a usar máscara depois que os governos impuseram multas aos infratores, e não pela consciência de sua importância para a contenção do contágio. No meu prédio, uma moradora se insurgiu contra a exigência da máscara na área comum do térreo sob a alegação de que infringe “o direito individual”. E o direito coletivo? Ah, dane-se. Num comentário à minha coluna “Vamos tocar a morte e seguir a vida” um leitor indignado me “acusou” de ser “daqueles que está (sic) do lado da ‘ciência’”. E estou mesmo. Recebi o comentário como um elogio.  No dia-a-dia se confirma esse tipo de comportamento. Se o caixa do supermercado passa o troco a menos, é considerado desonesto. Mas se vier a mais, raramente alguém retornará ao supermercado para devolver a diferença. O nome disso é desonestidade. Existem vários experimentos comprovando que entre um candidato branco e um negro ao mesmo emprego, ainda quando o negro demonstre mais aptidões, na maioria das vezes o escolhido é o branco. Isso tem nome: é racismo. Quando alguém diz que certo rapaz “até que é uma boa pessoa, apesar de gay”, isso também tem nome: é homofobia. Quando motoristas homens berram pela janela do carro ao flagrarem uma infração cometida por uma motorista: - Ah, tá explicado! É mulher na direção, isso tem nome: é machismo. Quando um pai concorda que um filho ganhe de um político um emprego como “funcionário fantasma”, esse pai é um interesseiro. Além de desonesto, porque está usando ilegalmente recursos do erário, ocupando ilegalmente um cargo e impedindo que a sociedade se beneficie dos serviços de um servidor capacitado. Quando uma autoridade se utiliza do cargo para humilhar um inferior – o velho “sabe com que está falando?”, isso tem nome: é autoritarismo. Quando uma horda de malfeitores bolsonaristas exibe faixas pregando o fechamento do Congresso e do STF isto tem dois nomes: truculência e analfabetismo político. E assim por diante.  “Se eu pudesse, faria que nem ele”  Mesmo com a existência de mecanismos de repressão a tais crimes, o sentimento que os impulsiona permanece de forma latente na sociedade. Basta surgir uma oportunidade para vir à tona. Bolsonaro, o desbocado, o racista, o machista, o homofóbico, o preconceituoso, o violento e o autoritário apenas personifica uma representação social com a qual, infelizmente, o brasileiro médio se identifica. É como se dissesse, seguindo a linha de pensamento de Ivann Lago: “ele pode fazer e dizer tudo o que eu queria dizer e só não digo e não faço porque sou um cidadão comum”. Exemplo claro desse comportamento é perceptível no parlamento, onde representantes de baixa extração, tão logo tomam posse, acham que podem desacatar pessoas e instituições por estarem protegidos pela imunidade parlamentar.  O único antídoto a tudo isso começa pelo reconhecimento dessa deficiência hereditária. E a oferta, desde o ensino básico ao superior, disso que cabe debaixo de um guarda-chuva bem amplo chamado “Humanidades”. Claro que meios de comunicação e família também têm papel relevante na reversão do quadro. Isso explica a ojeriza das hordas bolsonaristas à sociologia, à antropologia, à filosofia, à ciência política e às demais ciências sociais. Ora, se elas são humanizadoras, libertadoras e ensinam as pessoas a pensar pelas próprias cabeças, então são perigosas. Sem a introjeção desde o útero de conceitos que nos humanizem e libertem, tão cedo essa (de)formação de caráter não se alterará. Continuaremos a eleger bolsonaros. E a nos identificar com eles. >Mais textos do colunista Paulo José Cunha
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democracia homofobia Jair Bolsonaro racismo machismo preconceito SFT covid-19 pandemia cidadão médio

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