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POLÍTICA

A direita pós-modernizou-se e ficou ainda mais perigosa

"Nota do Instituto Brasil pela Liberdade contra Oscar de 'Ainda estou aqui' mostra como a extrema direita atua nos tempos modernos".

Paulo José Cunha

Paulo José Cunha

18/3/2025 | Atualizado às 12:48

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Reprodução de imagem de

Reprodução de imagem de "Ainda estou aqui". Premiação do filme foi criticada por organização de direitaDivulgação

Enganam-se redondamente os que acreditam que a extrema-direita age por impulso, no bate-pronto, em ação ou reação espontâneas. Seria bom se assim fosse, pois tornaria bem mais fácil a neutralização de seus atos. Mas não, infelizmente. Os extremistas da direita se modernizaram. Talvez seja melhor dizer que se pós-modernizaram. Assenhorearam-se das mais avançadas tecnologias, que empregam diretamente ou pelo trabalho de especialistas que contratam com tal finalidade. Os resultados são efetivos e seguros, o que torna seu discurso e suas ações ainda mais perigosos.

Agora mesmo, por ocasião do Oscar obtido por "Ainda estou aqui", revelou-se a habilidade de suas ações. A nota pública do Instituto Brasil pela Liberdade, órgão ostensivamente de extrema-direita, com sede no Rio de Janeiro, é a prova mais contundente da precisão com que atua nesses tempos pós-modernos. O texto, de apenas quatro parágrafos, é muito bem escrito, sem qualquer falha de redação.

Um destaque é a inexistência de ataques atabalhoados ou de baixo nível, que poderiam impactar e causar estranheza ao leitor. Pelo contrário. As palavras iniciais já demonstram o cuidado com que a peça foi redigida para evitar o efeito de desconfiança. Exatamente por isso, o Instituto não repele, não refuta, nem condena a premiação do filme. Suavemente, mas com firmeza, afirma logo na primeira linha que É com profundo pesar que recebemos a notícia da vitória do Oscar do filme "Ainda estou aqui".

Para logo em seguida afirmar que a obra, sob o verniz de arte cinematográfica, carrega em seu cerne uma clara agenda de propaganda comunista. Ou seja: como é de seu feitio, faz afirmações genéricas sem apresentar qualquer prova. O efeito é imediato, pois não admite contestação racional. Isso fica provado logo na frase seguinte, em que acusa o prêmio de representar um triunfo amargo dos realizadores do filme, a quem acusa de instrumentalizarem a cultura em prol de ideologias opressivas.

Uma das bases do discurso extremista é o uso de afirmações acusatórias a ideologias opressivas para ocultar exatamente a ação dos extremistas... da direita!, ao longo da história, desde o fascismo de Mussolini na Itália ao nazismo de Hitler na Alemanha, passando pelo militarismo golpista da América Latina e a radicalização dos regimes ultra-conservadores alicerçados em ideologias religiosas, como é o caso das teocracias muçulmanas do Irã e da Arábia Saudita.

O segundo parágrafo sutilmente induz o leitor a acreditar que o atual sistema político brasileiro, democrático em todos os sentidos, é um regime que poderá lançar mão de ferramentas para atrair apoio de jovens e de mentes impressionáveis. Observe-se o uso intencional e malicioso da palavra regime, usualmente empregado em relação a países onde imperam autocracias. Como se o Brasil estivesse sob uma ditadura. Para logo em seguida intuir, novamente sem base ou prova que, em breve, o filme terá sua exibição obrigatória em escolas e universidades onde os alunos serão forçados a absorver sua narrativa enviesada.

Afirmação assustadora e, portanto, mobilizadora no sentido da repulsa à obra cinematográfica. E acrescenta, no mesmo tom, igualmente sem prova nem indício, que o filme será elevado à categoria de crime, uma afronta direta à liberdade de pensamento e expressão. Para logo em seguida, já no último parágrafo, garantir com todas as letras que o filme é um símbolo do avanço silencioso de uma máquina ideológica. E novamente, sem prova alguma, acusa os realizadores de realizarem o sufocamento da diversidade de ideias (?) e de provocar a erosão da autonomia individual(??).

Sem mencionar a Academia de Hollywood que, afinal, foi quem deu o prêmio ao filme, a nota assegura, retumbantemente, que, no futuro, a arte, outrora refúgio da alma humana, se curva aos ditames de um regime (novamente a democracia brasileira é taxada pejorativamente de regime) que não tolera dissenso. Tal afirmação, como é óbvio, causa efeito imediato em leitores desavisados, mesmo sendo gratuita e equivocada ao fim e ao cabo, pois intencionalmente suprime a existência no Congresso Nacional brasileiro de uma sólida bancada de oposição, que outra coisa não faz, dia e noite, do que praticar exatamente... o dissenso. E conclui, triunfante, em tom de conclamação, que possamos, ao menos, manter acesa a chama da resistência intelectual diante dessa triste realidade.

Convenhamos: a nota, distribuída fartamente e impulsionada pelas redes sociais, é uma peça exemplar e assustadora da inteligência, sutileza e elegância com que a extrema-direita vem atuando. O que amplifica e fortalece sua imagem e sua mensagem, pela enorme capacidade de cooptação e convencimento. Com o reforço advindo dos púlpitos das igrejas evangélicas e da ação dos influencers das redes sociais tipo Pablo Marçal, é possível explicar como a direita explosiva na prática, e não em sentido figurado, como ficou provado no 8 de janeiro tornou-se altamente competitiva, a ponto de preocupar seriamente os setores mais racionais e equilibrados da sociedade. Para aproveitar o trocadilho, não é que a extrema-direita ainda esteja aí. Ela está mais aí do que nunca. Os sinais de que o perigo se pós-modernizou estão bem aí. Basta olhar com olhos de ver.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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