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Democracia digital

A IA pode definir seu voto?

Proteger a democracia exige ir além da discussão sobre as deep fakes: a nova fronteira eleitoral está nos algoritmos que influenciam o debate público em 2026.

Larissa Alfino

Larissa Alfino

4/3/2026 16:00

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"A IA pode definir seu voto?", essa foi a pergunta que o podcast Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, lançou recentemente. Ela provoca uma reflexão fundamental: a inteligência artificial não substitui o eleitor, mas tem o poder de redefinir o ambiente em que a decisão é tomada. É uma tecnologia que pode ampliar o acesso à informação e fortalecer a participação cidadã ou, ao mesmo tempo, intensificar vieses, criar bolhas de desinformação e concentrar influência nas mãos de quem controla os algoritmos. A democracia não é apenas o ato de votar: é o processo que antecede o voto e é aí que a IA entra como fator determinante.

Na última segunda-feira (02/03), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) voltou a analisar as regras que valerão para o uso de inteligência artificial nas campanhas. O foco imediato são as deep fakes, a manipulação de imagens e vozes, a produção de conteúdos sintéticos capazes de simular falas ou situações inexistentes. O TSE já proibiu esse tipo de conteúdo nas eleições de 2024 e agora discute o aperfeiçoamento das restrições para 2026. No Congresso, o Marco Legal da Inteligência Artificial (projeto de lei 2338/2023), aprovado no Senado, prevê multas de até R$ 50 milhões e suspensão de sistemas, mas tramita na Câmara dos Deputados desde dezembro de 2024 e ainda aguarda deliberação de mérito.

Durante anos, o centro da preocupação democrática esteve na produção de conteúdo enganoso: fake news, montagens, redes coordenadas de desinformação. Agora, a partir da constatação de que a inteligência artificial não apenas cria conteúdos, o desafio vem se aprofundando. Por meio de diferentes ferramentas, é possível organizar fluxos de informação, sintetizar notícias, responder perguntas, hierarquizar narrativas e aprender com padrões de engajamento social. Se antes o risco era consumir uma mentira fabricada, hoje o risco é passar a se informar por sistemas automatizados que filtram e interpretam o mundo para nós.

Essa é a mudança estrutural. Modelos de linguagem já são utilizados para resumir notícias, explicar temas complexos e orientar decisões cotidianas. Quando esse tipo de ferramenta passa a mediar o entendimento sobre política, candidatos e políticas públicas, a disputa deixa de ser apenas por narrativas visíveis e passa a ser por arquitetura invisível. Quem programa os filtros? Quais dados treinam os modelos? Que vieses são reproduzidos?

A IA não decide o voto, mas pode redefinir o ambiente informacional que molda a escolha do eleitor.

A IA não decide o voto, mas pode redefinir o ambiente informacional que molda a escolha do eleitor.Freepik

A equação democrática sempre envolveu três elementos: informação, poder e escolha. A inteligência artificial não elimina nenhum deles, mas altera suas proporções.

Se uma parcela crescente da população passa a "consultar" a IA para entender política perguntando sobre candidatos, propostas, escândalos ou programas de governo, a forma como essas respostas são estruturadas ganha relevância democrática. Modelos treinados com dados enviesados podem produzir distorções históricas. Sistemas calibrados para maximizar engajamento tendem a priorizar conteúdos mais polarizadores e a escala tecnológica permite que isso aconteça de maneira massiva, personalizada e de difícil rastreamento.

Há também uma dimensão de desigualdade tecnológica. Campanhas com maior capacidade financeira e técnica podem utilizar IA para produzir mensagens segmentadas, testar narrativas em microgrupos e ajustar discursos em tempo real. A assimetria de acesso à tecnologia pode se converter em assimetria de influência. Grupos historicamente mais vulneráveis no debate público, como mulheres na política, podem se tornar alvos de ataques automatizados ainda mais sofisticados.

Nos Estados Unidos, o FBI e a agência federal de segurança cibernética (CISA) já alertaram para o uso de inteligência artificial em campanhas de desinformação e para a possibilidade de manipulação automatizada em larga escala durante processos eleitorais. Na União Europeia, mesmo com regras robustas como o Digital Services Act, parlamentares discutem os limites da IA na formação da opinião pública e os riscos de erosão da confiança institucional. Democracias consolidadas já apostam que a tecnologia não é apenas ferramenta de campanha e podem se tornar infraestruturas de poder.

No Brasil, o debate ainda está concentrado na regulação do conteúdo, o que é importante, mas insuficiente. Precisamos ampliar a lente e avançar para a discussão sobre os sistemas que organizam, priorizam e distribuem informação com a velocidade que a evolução das tecnologias pede. Transparência algorítmica, educação midiática e letramento digital precisam fazer parte da agenda. Não como medidas periféricas, mas como estratégia central de proteção democrática porque não basta confiar na autorregulação das empresas que desenvolvem as ferramentas - a governança precisa ser pública e supervisionada.

A pergunta que o podcast lançou continua ecoando. Se não discutirmos quem molda esse processo, corremos o risco de preservar a urna enquanto perdemos o controle do ecossistema que a cerca. O voto ainda é humano, mas o ambiente onde ele se forma está cada vez mais mediado por sistemas automatizados que operam com lógicas próprias. Quando o assunto é democracia, quem molda o ambiente molda o poder.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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