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Eleições e tecnologia
20/2/2026 14:00
A disputa eleitoral deixou o palco principal. O que importa mesmo acontece atrás da cortina: modelos que antecipam comportamentos, detectam hesitações e modulam emoções para deslocar intenções de voto sem barulho. Não é o estouro de um vídeo viral; é o sussurro certo, no instante preciso, para a pessoa exata.
Durante anos, imaginamos que a mentira explícita fosse a maior ameaça. Não é. O perigo mais profundo já saiu da "fábrica de falsos" e se instalou bem antes do clique final: sistemas preditivos que testam micro estímulos, aprendem em tempo real e empurram o eleitorável alguns centímetros para lá ou para cá — centímetros que, somados, definem quem vence por margem apertada.
A arena pública perdeu centralidade. Quem aposta que a eleição se resolve no palanque, no horário eleitoral ou no feed mais barulhento está jogando o campeonato passado. A competição real virou uma experimentação contínua, invisível e particularizada. Cada indivíduo é um teste A/B ambulante; o país, um laboratório em tempo real.
O combustível dessa engrenagem são dados que não parecem políticos — mas são profundamente políticos: rotina de deslocamento, padrões de compra, horários de sono, temas que disparam ansiedade, cadência de leitura, tempo de permanência em telas, redes de contato mais frequentes. Com esse mosaico, modelos calculam qual estímulo altera a probabilidade de cada pessoa "virar a chave". Não é para todo mundo; é para os persuadíveis, que decidem eleições apertadas. É o efeito de elevação: não mira a maioria, mira a minoria que importa.
O resultado é uma política fora de cena. Enquanto a conversa pública discute o que já passou, a infraestrutura algorítmica reorganiza silenciosamente o que vem aí. Dois vizinhos, com medos distintos, recebem universos morais distintos: para um, desemprego e caos; para outro, fé e ordem. Nada necessariamente "falso" no sentido clássico — tudo verdadeiro o bastante para puxar um fio emocional. E, por isso mesmo, tão difícil de enfrentar.
Nesse tabuleiro, quem chega primeiro treina melhor. Modelos que combinam grandes linguagens, dados comportamentais e aprendizado por reforço descobrem quais gatilhos rendem mais mudança de lado e em quais perfis é mais eficiente desistir. O objetivo não é a verdade nem a persuasão ampla; é a microvirada. De fora, enxergamos estatísticas estáveis. Por dentro, milhões de empurrões quase invisíveis compondo um desvio decisivo.
A tentação óbvia é responder com censura. É o caminho errado. O antídoto mais potente é visibilidade útil: rastro, contexto e consequência. Conteúdos apoiados por IA e destinados a influenciar opinião política precisam de rótulo claro e auditável — não um aviso decorativo, mas metadados verificáveis, resistentes à remoção e legíveis por qualquer auditor. Anúncios devem carregar, além do criativo, a lógica de segmentação usada e a série histórica das variações testadas. Plataformas têm de manter bibliotecas públicas pesquisáveis, com amostras representativas do que circulou, para quem, quando e com qual intenção declarada.
A luz precisa alcançar também os bastidores. Relatórios periódicos de risco e impacto, com métricas padronizadas sobre alcance, intensidade de experimentação e uso de segmentações sensíveis, devem ser disponibilizados a reguladores, pesquisadores e imprensa. Sem acesso independente e contínuo — APIs com limites razoáveis, dados devidamente anonimizados e trilhas de auditoria —, o resto vira promessa sem prova. Transparência que não permite refazer as contas é só publicidade.
Há a dimensão do tempo. Na reta final, dias contam como anos. Não basta detectar; é preciso reagir. Janelas de resposta acelerada, com protocolos de "circuit breaker" para campanhas de manipulação preditiva coordenada, reduzem danos antes que virem irreversíveis. Não se trata de silenciar debate legítimo, mas de deter operações que se amparam na assimetria: elas sabem de você; você nada sabe delas.
Do lado das campanhas, vale uma regra simples: vencer no campo aberto. Quem confia na própria mensagem aceita luz forte sobre os meios. Quem depende do escuro talvez não tenha tanto a dizer. Compromissos públicos de não usar segmentações sensíveis, de publicar bibliotecas de criativos e de aceitar auditoria independente não são sinal de fraqueza; são demonstração de força e respeito ao eleitor.
Ao Estado cabe tratar a IA política como infraestrutura crítica. Isso implica obrigações de rastro técnico, auditorias externas regulares, relatórios de risco vinculantes, penalidades proporcionais e mecanismos céleres de reparação. Implica também coordenação real — Justiça Eleitoral, agências setoriais e defesa do consumidor — para que a proteção não se perca em fronteiras burocráticas. E implica educação cidadã, em linguagem simples, para que cada pessoa reconheça o novo terreno sem cinismo e sem pânico.
Nada disso elimina criatividade, humor, crítica ou confronto de ideias. Ao contrário: devolve valor ao que é dito na praça, onde todos podem ver e responder. Democracia é, antes de tudo, um método público de decidir diferenças. Quando ela escorrega para um duelo privado entre você e um modelo que conhece o seu medo, não escolhemos — somos escolhidos.
Se fizermos o básico — rótulo robusto, rastro audível, auditoria de verdade e reação no tempo do dano —, o voto volta a ser escolha diante dos outros, não reflexo solitário diante de um algoritmo. Se não, seguiremos negociando o futuro em salas onde só um lado enxerga. A ameaça mais perigosa não é a mentira perfeita; é a previsão certeira da sua hesitação — e a mensagem sob medida para dobrá-la.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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